sábado, 25 de junho de 2011

A COLHER


Não sou. Apenas estou. Por uma micro-fração do movimento que chamamos tempo, no mero momento em que posso me chamar de “eu” e “mim”, por que daqui a pouco não existirá o “mim” nem o “eu”. “Você” também não existirá, e, portanto, nada mais será.


Não importa a vida que levemos. No fim, tudo é igual, ou pelo está assim para aqueles que têm consciência de si mesmo, enquanto o “si” existe. Aquilo que é não poderá jamais ter consciência de si mesmo por que aquilo que é jamais passará pela evolução, pois, ser significa permanecer imutável para sempre. 

O que dá no mesmo que perfeição, uma coisa que não existe. Falo isso por que tenho um sentido particular para esta palavra: o imutável, que é diferente do belo e do organizado. Por exemplo: um diamante existe num sistema complexo de extrema organização e, para nós, é belo por que admiramos o brilho e aquilo que reluz. Mas se o diamante não é. Assim como a luz nunca foi. 

Com ou sem “big-bang”, ela carece de estrelas repletas de hélio e oxigênio. Se não admirássemos o raro e o brilho, um diamante seria horrível, continuando igualmente organizado em sua essência. Se o diamante fosse perfeito ele seria, e não poderia jamais estar sendo moldado; por que o que é não muda, não interage com o que está o bastante para consumir ou ser consumido, coisa que se não fizéssemos morreríamos bem mais cedo. 

O que é a vida? Não sei. Mais com certeza ela não é, mas está perante àquelas coisas aparentemente imutáveis à essência dos elementos microfísicos que interagem entre si através de reações químicas em ciclos periódicos exaustivos. Não acredito numa origem do universo, mas sim que seja finito quanto a sua longitude e latitude de matéria e vácuo como um cubo-mágico automático que gira torno de si mesmo, porém, como estamos dentro dele não nos é possível medi-lo e podemos ter a ilusão de que ele cresce ou supomos que existem outros similares. 

Quem nos poderá culpar por isso? No fim, tudo é em vão, e a beleza está justamente aí. Sê feliz enquanto tua mera existência humana e viva como um sujeito que tem consciência de si mesmo durar. 

Depois nada mais que aconteça importa. Não sei de fato se existe essência por que a cada dia a ciência consegue partir uma molécula menor. Mas sei que existe a matéria por que eu mesmo a sou. Contudo, o limite da matéria não está claro. Entretanto, se algo existe, então, alguma coisa há de ser, mesmo que aparentemente infinito em compartimento no quesito do nano, num periodismo talvez fractal. Se a fractal existe, pelo menos houve ancestral. 

Quem sabe, as essências não sejam, porém, duas coisas são: a matéria e o vácuo. Por mais que aquela mude de forma, continua sendo a mesma, logo, é. E este, por mais que lhe mudem o conceito, não se muda o fato de existir o vazio, sem o qual não haveria movimento, e por conseqüência o universo seria totalmente escuro, frio e sem vida para sempre; em outras palavras, seria perfeito. 

Difícil é crer que toda a matéria já esteve densa em algo supra-compactado de peso absurdamente além da matemática lógica. Por que uma matéria perfeita assim se dissiparia? O que poderia quebrar tal bloco inquebrantável de perfeição? A matéria não é perfeita. Admito aqui um paradoxo; a matéria é sem ser perfeita. 

É em suas frações mínimas que nunca se destroem nem aumentam. Sua perfeição está em ser imperfeita, por isso se liga e se desliga entre si em busca de algo que nunca achará. É até absurdo a imperfeição ser perfeita a ponto de jamais se aperfeiçoar, por que se o fizesse deixaria de interagir consigo e pararia numa condensação para sempre. Mas será que é uma imperfeição perfeita ou até nisso ela é defeituosa e um dia isso ocorrerá? 

O fato é que não estaremos mais aqui para ver, e se virmos morreremos um pouco ou muito antes de termos certeza absoluta da concretização do fato consumado. Em sua estrutura macro é visivelmente imperfeita, inclusive nós, por que nunca se fixa numa reação irreversível, do contrário as reações já teriam cessado há um momento antes do próprio surgimento do primeiro ser vivo, e nisso, nem teria começado a evolução. Lembremos daquele garoto no filme “Matrix” que diz: ― “Não há colher.” ― Para quem sabe ver, este foi o momento mais intelectual do filme. Uma possível interpretação é: Não há razão nem colher, mas um sentido a colher. 

Nós buscamos a razão, o porquê das coisas, quando não há razão alguma. Não pergunte por que ou como, mas se há sentido. A razão filosófica que aprendemos a ver como verdade não existe por que sempre esteve repleta de misticismo que consiste em verdades inventadas; ideologias. “Ideologia, eu quero uma pra viver”. A verdade é o sentido sem misticismo que não vemos nas coisas que são, ou seja; a matéria e o vácuo. 

Entendamos que vivemos simplesmente por que a matéria é e o vácuo também, e por isso ela pode movimentar-se em sua imperfeição. Não nos foi dado nenhuma missão, nem propósito por que apenas estamos e nunca seremos. Aquele que escreveu “Eu sou o que sou” mentiu de forma tal que se mata ainda hoje por essa razão sem sentido. A criança, o filósofo e o pensador perguntam por que. Eu, o questionador, cogito: Isto é ou apenas está? O que é ser? O que é estar? O que é sentido? O que é? O que está? Isto é o que se deve buscar, mas preferimos ver a colher ao invés de ver através com ajuda da imaginação. 

A imaginação é a melhor arma contra a mentira, mas também é seu maior escudo quando não a conseguimos segurar e nos deixamos levar pelo absurdo, que foi apelidado de “non sense” pela atual filosofia. Um exemplo claro é quando se cria um deus, com “d” maiúsculo ou minúsculo, não há diferença para quem se presta a pensar. Para que algo mais absurdo que um homem com super-poderes parapsicológicos, paranormais, metafísicos? 

Como um homem chegaria a tal ponto? Será que algum dia pelo menos um homem chegará a tal ponto? Muito provavelmente não, pelo simples motivo de ser necessária uma fonte de recarga de muitos “y”s, ou algo superior. Não se pode tirar sem por, por isso Deus não é e nem o homem. Mas enquanto este está, aquele não passa de uma reles ideologia mixuruca pela qual se mata; uma mera idéia errada na mente daqueles que escolhem a pílula errada do sonambulismo, que alguns chamam de “ignorância desejada”.

E ainda nos é cobrado a verdade, justamente daqueles que acreditam nas maiores mentiras e jamais terão capacidade intelectual para suportar a verdade quente em suas mãos. A vida não tem razão, então procure o sentido, ou pelo menos sinta e invente a sua própria razão. Seja hedonista, epicurista ou um fanático com o pensamento fechado para o sentido. No fim das contas, nenhum de nós sobrará neste mundo, que possivelmente também não sobrará. Mesmo que houvesse um deus que seja e demônio, haveria um modo de os matar por que não seriam perfeitos e se perfeitos fossem jamais poderiam criar algo como o homem, a imperfeição das imperfeições, o mais estúpido dos seres. 

O perfeito não gera o imperfeito e vice-versa, por que apenas o imperfeito interage e está passível de virar ou nutrir algo que viva. Tente ver através da colher e colha o sentido que o coelho esconde em sua pressa tamanha. Coma o fruto proibido, pois a maçã que desperta e adormece tem dois lados, Alice. “O que eu como a prato pleno bem pode ser o seu veneno, mas como vai você saber sem tentar”. A bela adormecida pelo menos sonha. 

O sonho é a única coisa que nos mantém vivos com vontade. A vontade de viver que Zagreus apresenta é a mesma que se deve ter sendo ateu, por que este vive um estado natural. Afinal, ninguém nasceu para crer em algo absurdo, mas os vampiros nos impuseram um batismo sem sentido, sem consciência e sem escolha. 

E ainda querem mandar na nossa vontade. “Libertas quae será tamén”! Viver consciente não é nenhum crime. Apenas vivemos sem esta anestesia mental que se chama religião, ou seita, ou seja lá qual for o nome que derem ao misticismo, incluindo a parapsicologia, metafísica, astrologia,física quântica, psicanálise e o positivismo. Por que não estamos ligados por sermos “irmãos”, “filhos de um mesmo pai” que de fato nunca houve, mas por sermos matéria. 

“A religião é o ópio do povo”. Não viemos do pó, mas da poeira-estelar, o que não é a mesma coisa nem de longe. Pela tabela periódica, possivelmente o hélio formou os outros elementos, então, somos, hélio. Mas, e quando partirem o hélio em nanos pedaços, nem o hélio será. Todavia, a matéria ainda é. Não há por que negar. Pergunte-se até duvidar de si mesmo. 

Saia da caverna. A questão bem formulada é o embrião no caminho para a verdade. Mas verdade para que se morreremos de qualquer forma? Será que é mesmo imprescindível estar correto ao invés de participar do coreto da vida hedonista? Questionar será preciso quando nem somos? Talvez a questão seja a única liberdade que exista, se é que a liberdade existe. Então, esteja!

 ATEU POETA