terça-feira, 19 de agosto de 2008

CRÔNICAS

O VÔO DO FALCÃO

Lembrei duma ocasião em que ri sozinho ao escutar uma conversa por acaso. Não sei se aconteceu de fato como o sujeito contou ao amigo do lado direito à janela do lotado ônibus da volta pra casa.
_Eu tava no sertão com uns primos passando as férias. Agente andava num buge, sabe? De repente, passam pela gente dois caras numa falcon verde, um deles gritou de zombaria esculachando nosso carro, cara! Nos chamou de tartaruga e tudo.
_Macho, eu lembro desse dia!_Disse um homem de blusa azul e boné preto, pelo que pude notar._Eu te mostrei as marcas de pneu na areia.
_Pois é, _Retomou o primeiro._ os caras nunca foram por lá antes, não tinham a menor idéia de como a curva mais adiante era fechada.
_E aí?_ Indagou o da janela._Eles morreram?
_Não._Insistiu o rapsodo original._A moto simplesmente desapareceu.
_Como assim?
_Sumiu! Restando só uma poeira desgraçada.
_Vocês pensaram bem que fosse alma, não foi?
_Agente arregaçou pra vê-los e nada. Eu fiquei meio assim...
_Eu cutuquei o braço dele_ Tomou a palavra o de vermelho._ e disse; tu viu aquelas marca de pneu lá atrás?
_Onde? Eu perguntei.
_Lá na curva. Aí foi o jeito a gente voltar pra conferir.
_Tinha uma decida braba, cara, depois da curva. Eu só escutei aquele “ai, ai” lá embaixo.
_Tava eu, ele e mais dois._ Disse o de vermelho.
_Quando a gente desceu, _Continua o outro._ os otários deram um vôo e aterrissaram em cima duns cactos. Só gemendo. Nós não agüentamos, claro que ajudamos a subir a moto e a tirar os espinhos; mas foi depois de mangar muito, meu irmão!
AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 24/10/2007


TÁXI

Um sábado desses de verão interditaram algumas ruas, intrafegáveis graças à chuva na noite anterior. Fazia um calor de moer os pensamentos, já passando das 14 horas.
_Eu vou por onde, agora?_Indaga o desavisado condutor ao trocador este indica algumas vias de acesso.
Alguns passageiros descem no meio do caminho, uns bem mais próximos de seu destino. Um outro doravante dá as indicações de caminhos alternativos que só ele conhecia.
_Por aí não passa!_Duvida o trocador, mas o motorista segue adiante.
_Agora, vira à esquerda.
_Não passa aí com nojo! _Duvido, e os outros repetem.
_Passa que eu pego o ônibus aqui todo dia.
_Deve ser noutro canto._ Corrige uma senhora ao centro, segurando umas sacolas enormes.
_Tu tá é doido!_ Afirma um sujeito de óculos escuros.
O ônibus pára depois de passar por ruas cada vez mais estritas. O espertalhão faz o pedido, finalmente.
_Abre a porta, que eu moro aqui!
_Ah, sim isso é um táxi?_Digo, enquanto alguém fere o nome de quem pariu aquela desgraça.
_Motorista, _Esse vira o jargão da tarde. _tu devia me deixar em casa também!
AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 24/10/2007

O CASAMENTO DO BOÊMIO

Um sujeito, há algumas décadas, era preso todos os dias; e se soltava toda vida, arrombando o cadeado da cadeia. Dizem que o fazia com dois palitos de fósforos, mas poderia ser com grampos ou até mesmo outras chaves; ao que parece, ele entendia bem do assunto.
Eis que o malandro desonra uma guria menor, ela doida pra casar. Ele, um boêmio que passava longe da Igreja, assiste à missa do bar; seu primeiro mandamento é amai ao álcool sobre todas as coisas.
A família dá parte do meliante, o casamento é celebrado às pressas. O juiz faz a última pergunta ao elemento.
_Você a aceita como sua legítima esposa?
_É o jeito, né, doutor?
_Policial, se ele não responder direito pode prender!
_Você a aceita como sua legítima esposa?
_Eu num queria não, mas é o jeito , né, doutor?
_Soldado, encarcera esse safado!_Como se isso adiantasse!

AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 24/10/2007

A SERENATA DOS BOÊMIOS

Pelo que se conta, os boêmios importunavam os ditos amancebados serrando lata e cantando “deixe essa vida!” como se chorando. Outro alvo eram as vitalinas, por aqui tinha três irmãs que eram acordadas todas às madrugadas por uma mesma dupla.
Certa vez, os menestréis-mequetrefes iniciam o ritual.O dedilhado no violão denuncia a cantoria enluarada.
_ “Noite alta, céu risonho...” _A janela se abre, as três esvaziam seus penicos na cabeça deles.
_ “Lá vai mijo, sem-vergonha!”.

AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 24/10/2007

O BOÊMIO PEDE ARREGO

Certa vez, um sujeito que não levava desaforo pra casa, virou até folclore, e que gostava de cochilar no bar de bêbado, conta-se que era muito forte, é acordado por um zoadento também chumbado que não parava de tagarelar.
_Cala essa boca! Tá vendo que eu quero dormir, não!
O boêmio fala é mais alto ainda.
_Cala a boca, felá da puta!
O zoadento saca uma faca, segue na direção do dorminhoco e lhe enfia na barriga.
_Quer no cu ou quer na bunda?
O outro toma a faca, jogando bem acolá e aperta o pescoço do boêmio com as duas mãos. Já quase sem fôlego, o tagarela grita.
_Socorro, polícia! Ele vai me matar! _A força policial “socorre”, o levando para a cadeia.
AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 24/10/2007

A PESCARIA

Dois amigos pescando, um pegava com a tarrafa e repassava o outro guardar no landuá. Na radiadora da matriz um conhecido punha a música: “Tá, tá, tá, tá na beira da lagoa, o sapo tá na beira da lagoa...”.
_Esse fela da puta não tem mais o que fazer, não?_Diz o pescador irritado com a música.
_Pois é, mas que hora é que a gente vai fritar esses peixes? Já tá escurecendo.
_Não, eu pesco só por diversão. Segura outro aí.
Pouco depois, o pescador muda de idéia.
_Macho, eu tô pra aceitara a tua proposta. Já tem bem uns vinte aí, né?
_Nã, aqui mesmo não!
_E os que te joguei, cara?
_Tu não pesca por diversão?
_É.
_Então, eu soltei por diversão.
AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 24/10/2007

UM BOÊMIO NO CARGO DE CONFIANÇA

O antigo secretário de obras do município, eu nem era nascido ainda, pelo que contam alguns, era um sujeito metido a boêmio, nunca perdera a calma nem o jeito malandro de ser.
Uma de suas artimanhas foi falsificar os documentos de identidade, título de eleitor e C.P.F. para dar um golpe certeiro na previdência, aposentou-se com seis anos de antecedência.
Outras de suas presepadas foi contratar dois funcionários fantasmas para todas as obras públicas. Um dia o prefeito desconfiou.
_Quem é esse tal de Malaquias, que trabalha em todas as obras e que eu nunca vi?
_Seu prefeito, é um jumento, senhor.
_Jumento?
_Sim, é o jumento do secretário; foi comprado por cem réis.
_E esse aqui, também não aparece?
_Esse aí é pago como pedreiro pra levar o bicho pra pastar toda tarde às 15 horas.
Dizem que o tal jumento até título de eleitor possuía. E pior, assinava na cédula de votação como Malaquias.
AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 01/11/2007

O MALANDRO DA QUERMESSE

Nas festas de Igreja era costume a realização de bingos e leilões de galinha caipira à cabidela, pra falar a verdade ainda existe. O que talvez não haja é o mesmo boêmio a tramar façanhas iguais aquelas.
Um sujeito de duas caras que era irmão do tocador de tuba, este quando ia tocar não conseguia tirar som do instrumento, pois o outro jogava todos os frangos possíveis no âmago do mesmo. O jeito era prosseguir com o golpe.
Bebendo, mais tarde, e comendo os frangos com farofa de tira-gosto; eis que lhe surgia vez por outra um tocador de trompete, trombone ou outro instrumento de sopro qualquer, com a boca toda papocada.
_O que houve contigo, meu amigo, tua boca tá cheia de calo? É por isso que eu não toco nada.
_Algum paspalho pôs pimenta nos bocais da banda inteira, já é a terceira vez._O amigo inocente nem imaginara estar se queixando para o próprio autor da tramóia._Esses frangos foram roubados da quermesse, foi tu?
_Eu ia muito fazer isso mesmo! Tá doido? Acontece que um cara passou vendendo aí por quinze contos e eu comprei.
_Quem era?
_Acho que é de fora.
_Sim, mas tem que devolver!
_Eu vou já perder meu dinheiro, tu não quer? Mas, se você me comprar eu vendo, na hora. Qualquer trintinha...
_Se tu comprou por vinte...
_É a inflação!

AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 02/11/2007

BOÊMIA EM DOSE DUPLA

Um certo rapaz que trabalhava de pedreiro antigamente, além de entender de encanação, gostava de aprontar presepadas. Tinha um amigo que vivia de bicos, sendo peão, sem nunca arranjar emprego fixo; este era o comparsa predileto. O primeiro chamarei de Lucas e o segundo de Mateus para melhor contar essa história.
Lucas estava a mais de dois meses sem ser chamado para nenhuma obra e atolado em dívidas, precisava arranjar um meio de descolar uma grana. Então, teve uma idéia; como já era conhecido por desentupir fossas, bastava entupi-las para que alguém o chamasse.
E isso era fácil por que naquela época o esgoto ia direto para o rio, bastava entulhar os canos. Depois era só remover. Realizou a façanha inúmeras vezes sem que ninguém desconfiasse.
Mateus, por sua vez, invadia quintais alheios para roubar frutas. Numa dessas, o dono o avistou tirando mamão escondido.
_Desça daí, seu cabra! Esses mamões são pra vender. Se tu quiser um que compre.
_Então toma._O invasor joga algumas das abóboras na cabeça do dono e foge pelos telhados ao vê-lo com um machado na mão.
Mateus também era perito em arrombar fechaduras sem deixar vestígio. Por vingança, à noite, abre a porta da casa do feirante, sabendo que este estava bebendo em algum bar. Com uma goiva corta um montante das bananeiras do sítio, depois junta com um monte de feno e joga tudo na sala e cozinha alheia.
Ao regressar, o vendedor vendo aquela bruzundanga, completamente ébrio, exclama.
_Égua! Isso é uma casa ou é uma vacaria?
Conta-se que a dupla de boêmios roubou uma galinha, vendendo a uma mesma irmã oito vezes seguida. E como se não bastasse, os meliantes voltaram a roubar novamente da irmã para comer de tira-gosto.
No dia seguinte, os trapaceiros são intimados a depor.
_Eles me venderam oito frangos ontem e depois roubaram todos, seu delegado._Diz a freira.
_Não, senhor. É que lá têm muito timbu. O Mateus viu três ou quatro por aquele lado.
_Foram eles que comeram as galinhas, eu só vendi. Não tive nada a ver com isso!
AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará, 11/02/2008

A BONECA

Por volta de 1986, a mulher tinha falecido e as raparigas pegavam o dinheiro do velho sem fazer nada na cama.
_Meu pai, se preocupe não que eu vou arrumar uma mulher bem legal pro senhor._Uma boneca inflável, ele encomendara por um amigo de São Paulo.
Chamarei aqui o velho de Sebastião, o filho de Soares. O filho mais velho denomino Cícero e Paulo, o borracheiro.
Cícero, num acesso de raiva passou a faca na boneca.
_Como é que tu foi dar uma coisa dessa pro pai, macho? Falta de respeito, cara!
_Falta de respeito é tu furar ela sem vê pra quê. É melhor ficar com ela que deixar o véi com essas quengas que só levam o dinheiro dele.
Depois, Soares vai ao borracheiro, salvo engano, o único na cidade na época.
_Tem jeito não,_Diz Paulo._ mas tu deixa ela aqui sempre que eu tento remendar. Se conseguir, eu aviso.
Passado alguns meses, Soares voltou à oficina, adentrou abruptamente a casa do sujeito, um andar acima, e o avistou utilizando a boneca de seu pai.
_Tu disse que não tinha jeito, mas tá aí!
_Eu ia devolver, mas é que a minha mulher foi embora com outro... Daí, eu passei a usar a boneca.
AROLDO FILHOPacoti-Ceará, 11/02/2008