Temer na cadeia Aécio na cadeia

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Copiem e colem em seus perfis

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

O TRIBUNAL DOS URUBUS


ALIANÇA DOS JOVENS ARTISTAS - AJAS

QUARTA-FEIRA, 12 DE DEZEMBRO DE 2007

O TRIBUNAL DOS URUBUS

Três acontecimentos quase simplórios de exemplos da impotência do cidadão isolado através da minha situação de estudante não me abandonam à mente. Determinadas ocasiões nos marcam ma ferro no âmago do superego que o semblante do ide quebra-nos a máscara mais oculta de caráter que construímos e toma o controle para si, assumindo a personalidade vingativa com o cognome justiça.


Somos a figura do ódio em sua essência gótica e grotesca; jamais retornaremos a quem pensávamos e demonstrávamos ser. A consciência alterada abruptamente não regressará ao estado de outrora nem sob choque superior.


1° A acusação

2° O acesso negado

3° A expulsão

No primeiro ano do ensino médio, 2002, a diretora deu uma desculpa esfarrapada mudar-me de sala, pondo-me junto com uma turma fora da faixa e do convívio, nunca tinha visto a maioria daquelas pessoas, todavia, aquela foi uma boa sala.


Um dia, o professor falta sem aviso prévio e logo é substituído. Por falta do diário de classe assinamos numa folha. Então, vejo "ator" grafado em seguida ao nome de alguém. Faço uma brincadeira, troco para "atriz desempregada.


Um colega próximo sugere: _Bota "popozuda" na fulana._ Outro desenha uma galinha e continuamos a operação: "assaltante", "traficante" e um monte de insultos que esqueci.


A diretora adentra para transmitir um comunicado. Um sujeito transforma a folha numa carta e entrega à professora, que repassa para a mulher que estava ali por acaso.

_Estão vendendo um pozinho branco na parte da manhã, e é gente dessa sala. _Jogou verde aquela que se mantivera cerca de dez anos no cargo a custa de ameaçar educandos com sua presença tenebrosa e incompetente sentada ao biroau.


Nenhum de nós revelou o culpado, o que seria deveras facílimo, uma vez que minha letra é inconfundível de tão feia, fomos expulsos como um bando de galinha que se diz "xô".


Menos de um mês depois, presenciei a expulsão de outra turma, do terceiro ano, que vaiara a diretora perante todo o corpo discente e docente do turno. O motivo? Ela fez propaganda eleitoral, revelando qual seu prefeito favorito.


Esquisito é o fato de nunca haver número superior a dois concorrentes e pior é quando eles se unem, um vice do outro, para ganhar daquele que seria o terceiro. Soube, mais tarde, de outras turmas que ganharam a liberdade temporária pelo mesmo motivo do parágrafo anterior e de outros mais banais, que não vêm ao caso.


Segundo ano, chego atrasado cinco minutos, porém, o porteiro chega muito tempo depois para negar-me acesso à aula.Indignado, dou um soco no moribundo interruptor, uma chapa na porta que antecede o portão e pulo o muro.


Sou mandado embora sem adentrar a sala de aula.


_Ele deu uma voadora na porta! _Afirma a coordenadora financeira. Dois anos após ela dava aula de educação física.


_Quem foi que deu voadora? _Indago.


Ela limpa a garganta, ergue a cabeça, em postura impecável, e segue rumo à secretaria, calada.


No terceiro, ocorre caso mais dramático; sou expulso por ir ao banheiro.


Um dia antes, o porteiro permite a saída de uma colega minha que alega ir fazer aula de capoeira, mentira. Uma segunda, com inveja, tenta sair, mas lhe é vetado o direito.


No outro, ambas iniciam discussão, dia de prova em que eu estudava piamente. Como vice-líder eleito, levanto, o professor treme lá fora, sinto a angústia em sua alma, não terá controle da situação.


A diretora surge antes que eu fosse chamá-la, como se minha lente lesse. Manda uma menina embora por estar de chinela e sem a blusa da farda. As zuadentas calam-se.


O professor entra e decreta: _Ninguém sai.

Pouco depois, um colega levanta.

_Onde vai? _Indaga o "Mestre", como ele se intitula.

_Ao banheiro.

_Volte. _O cordeirinho obedece.

Outro repete o gesto.

_Volte. _Ordena o soberano do giz.

_Fela da puta! _ Solta um soco no ar.

_O que ele disse? _Os abutres alunos respondem. O colega é expulso, mas o pai desse, segurança do prefeito que, no fim do mandato, vende livros recém saídos da fábrica para a reciclagem nesse mesmo ano, 2004,coage o professor.


Aproveito para ir ao banheiro enquanto uma colega pedia repetição da explicação.

_Espere até o fim da aula.

_Má rapaz! _Respondo e saio. Depois volto para pegar a apostila do babaca que quase me reprova nesse ano sem que eu ao menos tenha visto a média final; tinha prova no segundo tempo sobre Vargas.


Interessante é que a peste é meu primo, e substituía uma professora de caráter incompatível com o dele, o anterior, a diretora, a coordenadora de finanças e muitos outros.


_Vá pra fora! _Berra o cordeirinho obediente que é tão abutre quanto os outros, que logo o imitam.


_Saia. _Sentencia o juiz do giz.

_Você poderia ser mais idiota.

_O que?

_Você não é môco.

_Me respeite, rapaz, eu não sou seu parinceiro não.

_Só pode pedir respeito quem exige respeito...

_Me respeite, eu sou seu professor!

_Se exige respeito respeitando..._

Você tá pensando que é quem?

_Você não me respeitou. _Saio, escuto a forte pancada na porta.


Dois dias após, a sentença continua: _Você está suspenso cinco dias das minhas aulas. _O que representava matemática, física e química. Detalhe: A escola pública, cobaia do CRED, adotara a semestralidade e um tal de AS e ANS, o que significa, grosso modo, que cada falta será multiplicada por dois e meio, logo, cinco vira doze e meio; um número reprovativo.


Nunca repeti um ano, até agora. Com ódio, iria denunciar no fórum, o que seria pior para mim, à priore e à posteriore por que hoje é um dos carrapatos do prefeito. Minha cabeça estava tão ardente que esqueci e passei direto para casa.


A custo, relatei o incidente à minha mãe, ela agiu o mais frio que pode. Pediu a acusação por escrito e xerocou. Depois de muita conversa fora, com aquele que um dia fora seu aluno, ela dispara à queima-roupa:

_ Mesmo que meu dinheiro se acabe, eu vou à sede do CONSELHO e peço uma sindicância que revele o índice de desistência, neste colégio, de 2000 pra cá. Mando eles perguntarem, a um por um, qual o motivo que os levou a abandonar os estudos.


No dia anterior, aproveitando que minha sala fora a única mantida no período noturno, os integrantes do corpo docente reuniram-se, às escondidas, para colocarem meu nome no famoso BO, batismo dos alunos, constava apenas a assinatura do sentenciador, que embora primo da diretora, não teria apoio formal.

Um corvo desprovido de covardia nunca será um bom carniceiro.

_Eu perdi a admiração que tinha pela senhora. _ Afirma o professor, em último ato, à minha mãe. E conclui, para a secretária: _Ratifica, ou retifica, até a palavra é difícil... Ou melhor, suspende a suspensão!

A diretora não seria uma boa chantagista de mais de dez anos sem um Az na manga:

_Agora, você vai explicar para os colegas e os professores o porquê da anulação da suspensão.


O circo do poder fora armado: No centro eu, minha mãe ao biroau e os palhaços nos espaços restantes.


Dentre as falas mais significativas da batalha intelecto versus poder destacam-se: _"...gado a gente marca, fere e mata, mas com gente é diferente..."

_Se ele ao menos pedisse perdão. _Uma abutre colega pronuncia tamanha bobagem.

_Perdão é para quem se arrepende.

_Peça desculpas, meu filho!

_Vai contra minha honra.

_Diga para eles o que você entende por honra.

_Segundo um filme que assisti, "honra é uma coisa que o homem dá a si mesmo". Eu não estaria sendo sincero se pedisse desculpas por uma culpa que não tenho. Isso fere o conjunto de valores que adquiri até hoje e que formam meu caráter.

_O que você entende por caráter?

_Personalidade, segundo um documentário filosófico que assisti, é "a máscara que pomos para os outros" e caráter a que pomos para nós mesmos, portanto, é o mais próximo daquilo que realmente somos.


E a que jamais esquecerei é quando o cara que virou diretor de outra escola e que, tempos atrás, tomou, "legalmente", a casa de minha tia-avó materna (hoje já falecida), apertando minha mão como quem derruba gado e fitando em meus olhos o olhar negro da senhora morte, diz:

_Já se passaram duas horas sem que você fosse ao banheiro. _Respondi ao insulto, entretanto, abutres não escutam o que não lhes convém. Fala perdida. O idiota não sabia da minha vontade tremenda de urinar, maior um pouco da de quebrar-lhe os dentes.


Na segunda opção eu seria preso, talvez, pois tive o azar de completar dezoito justo quando a lei torna esse número em idade adulta penal. E por ele hoje ser mais um dos carrapatos do prefeito, talvez desse uma complicaçãozinha a mais; se bem que valeria à pena dar uma lição naquele imbecil.


Senti-me dentro da fábula em que a raposa diz:

_Você é a causa da seca que nos assola, comendo as folhas indefesas que nada lhe fizeram, coitadas. Matem-no!


Estive, na vida real, dentro da estória "o tribunal dos urubus", fui salvo pela Coruja Solidária, deixando de ser o burro da vez.


Guilherme de Almeida finalizaria assim, talvez: "...as aves que aqui revoam são corvos do nunca mais a povoar nossa noite com duros olhos de açoite."


Nunca mais quero viver outra fábula de La Fontaine.


AROLDO FILHO
Pacoti-Ceará
03/04/2007
3h e 33min